sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Salão de beleza reúne mulheres para discutir questões raciais e de gênero Reuniões acontecem no salão em Osasco todas as sextas-feiras. Entre as fundadoras estão mulheres que vivem em ocupações de terra.

Salão de beleza reúne mulheres para discutir questões raciais e de gênero
Reuniões acontecem no salão em Osasco todas as sextas-feiras.
Entre as fundadoras estão mulheres que vivem em ocupações de terra.


Dez mulheres ligadas a um movimento social inauguraram no início de outubro um pequeno salão de beleza do Centro de Osasco com uma proposta de ir além dos cuidados com cabelos, maquiagem e manicure. As conversas casuais dão lugar a reuniões semanais onde funcionárias e clientes trocam ideias sobre temas como beleza negra, posição da mulher na sociedade e a aceitação do corpo.
A ideia nasceu da necessidade de expandir atividades sociais que o Movimento Luta Popular já fazia na região, promovendo a interação e união entre mulheres de comunidades carentes, e gerar uma fonte de renda para moradoras da Ocupação Esperança, em Osasco.
Com o apoio de algumas mulheres de outra ocupação, a Jardim da União, no Grajaú, e doações arrecadadas via financiamento coletivo, o plano saiu do papel no início de outubro.
"O nosso salão atende todo tipo de cabelo, mas a gente fez a opção de dar atenção específica para cabelos crespos e cacheados, porque a gente sabe que, no geral, os cabeleireiros, os produtos de beleza, dificilmente são voltados para quem tem o cabelo crespo, para quem é negro, para quem tem o cabelo enrolado", explica Irene Maestro, uma das organizadoras do salão Abayomi Cabeleireiras.
Irene Maestro, aspas (Foto: Eduardo Pereira)
As raízes negras e a consciência social se mostram já no nome do salão. Abayomi era como as mulheres africanas escravizadas chamavam bonecas artesanais, feitas do tecido rasgado e amarrado de seus próprios vestidos, que elas davam aos seus filhos e filhas antes de serem separadas deles. Anos depois, esses brinquedos foram responsáveis por reunir diversas famílias, assumindo o papel de símbolo de luta da mulher negra contra a escravidão.
As paredes do salão são pintadas de lilás, cor da luta pelos direitos das mulheres, e trazem fotos e textos de mulheres ativistas contando o processo de luta contra o preconceito.
Reuniões às sextas
As reuniões são realizadas às sextas-feiras, após o expediente. Cada semana é um tema pré- determinado. No dia em que o G1 visitou o salão, o debate era sobre padrão de beleza. "É importante promover esses debates porque a gente vive em uma sociedade em que ainda existe muita desigualdade entre os homens e as mulheres", diz Irene. "Oferecer esse espaço é criar algo que não é comum no nosso cotidiano".
"É muito bom você se aceitar como você é, né? Porque aquele padrão de beleza em que a pessoa tem de ser loira, tem que ter o cabelo liso, ser magrinha, é nessas discussões que a gente faz aqui, nas conversas de mulher [que nos sentimos assim]", adiciona a cabeleireira, manicure e depiladora Sandra de Moura da Silva.
Fernanda Modesto, aspas (Foto: Eduardo Pereira)
Fernanda Modesto, cabeleireira e manicure, costumava alisar o cabelo. Agora, ostentando um estiloso penteado afro, ela ajuda outras mulheres na transição, com apoio não só estetico, mas moral. "Assumir o cabelo crespo é mais do que beleza", diz Fernanda. "É uma questão de identidade, de você se identificar como negra, se ver como negra. De eu mostrar mesmo que eu sou negra, amo meu cabelo, não tenho vergonha do meu cabelo crespo."
* Com supervisão de Paulo Guilherme

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