quinta-feira, 19 de maio de 2016

Conheça a história do São João de Caruaru, das ruas ao 'Pátio do Forró'

Conheça a história do São João de Caruaru, das ruas ao 'Pátio do Forró'
Festejo passou por duas ruas do Centro, uma avenida e a estação ferroviária.
'Só ficou a saudade', diz viúva de Agripino Pereira, idealizador do São João.

Todos os anos milhares de pessoas prestigiam o São João de Caruaru, no Agreste pernambucano. Conhecido como o "Maior e Melhor São João do Mundo", o palco principal dos festejos juninos do município é o Pátio de Eventos Luiz Gonzaga. Mas, nem sempre foi assim. Idealizada pelo falecido odontologista Agripino Pereira, a festa teve início em 1972 na Rua São Roque, no Centro, segundo o historiador Walmiré Dimeron. "Ele gostava demais de organizar tudo. Era uma época muito boa", lembrou a aposentada Tereza Pereira, de 74 anos - viúva de Agripino.

A família Pereira morava na Rua São Roque quando o odontologista - ao lado a mulher dele - teve a ideia de decorar o local para comemorar o São João. Como as pessoas receberam a festa de forma positiva, em 1973 Agripino foi até Vitória de Santo Antão tentar conseguir patrocínio de uma empresa de bebidas - que ajudou cedendo um carro de som para animar as quadrilhas e cirandas. Naquele ano, a festa passou a ser realizada na Rua 3 de maio.
"Para a decoração da rua, todos os vizinhos participavam, eram cerca de 33 famílias. Meus filhos tinham três, sete, dez, 11 e 12 anos na época e os maiores já ajudavam também. Eu ficava fazendo pamonha, canjica e as outras comidas típicas porque naquele tempo não tinha ninguém que vendesse, como tem hoje. Eu ainda ajudava a organizar as apresentações culturais, como ciranda, quadrilha e dança de fita", contou Tereza ao G1.
As irmãs Agristelma, Agristela e Maria das Graças vestidas para os festejos juninos (Foto: Tereza Pereira/Arquivo pessoal)
As irmãs Agristelma, Agristela e Maria das Graças
vestidas para os festejos juninos (Foto: Tereza
Pereira/Arquivo pessoal)
De acordo com a aposentada, todos os anos era formada uma comissão para organizar a festa junina. "Meu marido foi o primeiro presidente desse grupo. Todos os anos elegíamos um. Até 1976, mesmo não sendo mais o presidente, Agripino ficava ajudando na produção do São João como coordenador", ressalta.

Tereza ainda conta que nomes da música como Trio Nordestino, Jackson do Pandeiro, Luiz Gonzaga e Azulão chegaram a animar o evento. "Era muito bom. Como não tínhamos palco, esses artistas cantavam em cima de um caminhão", recorda.
O casal deixou de participar da organização do evento quando foi morar em outro bairro e Agripino começou a estudar odontologia. A aposentada explica que em 1977 quem ficou à frente do São João foi uma das seis irmãs Lira, as quais sempre ajudavam a família Pereira durante o festejo. "Entregamos todos os materiais e fotos para elas. Depois disso, só ficou a saudade e as lembranças", diz Tereza.
Tereza, viúva de Agripino Pereira, ao lado das filhas Agristelma (esq.) e Agristela (dir.) (Foto: Joalline Nascimento/G1)
Tereza, viúva de Agripino Pereira, ao lado das filhas Agristelma (esq.) e Agristela (dir.) (Foto: Joalline Nascimento/G1)
Irmãs Lira
Responsáveis por dar continuidade à festa idealizada por Agripino Pereira, as seis irmãs Eulina, Juraci, Laurinda, Adélia, Odília e Marinete Lira realizaram o São João de rua até o ano de 1993 - quando a Prefeitura de Caruaru fez um acordo para organizar o festejo. "Não era certo concorrer com o prefeito", justifica a última das irmãs viva, a aposentada Marinete Lira.
Marinete Lira lembra do São João da Rua 3 de maio ao olhar para as fotografias (Foto: Joalline Nascimento/G1)
Marinete Lira lembra do São João da Rua 3 de maio ao olhar para as fotografias (Foto: Joalline Nascimento/G1)
Depois de passar pelas Ruas São Roque e 3 de maio, a prefeitura decidiu transferir o São João de Caruaru para a Avenida Rui Barbosa, depois para a Estação Ferroviária e para o Pátio de Eventos Luiz Gonzaga.
Marinete lembra que no período em que ela e as irmãs organizavam o São João, pessoas de Maceió, Recife, Belo Horizonte e Manaus prestigiavam o evento. "Vinha gente de todo o Brasil. A rua ficava linda. O teto, com as bandeirinhas, parecia o de um clube, de tão bonito. Em noite de lua cheia, dava até a impressão que estávamos na beira do mar", detalha.
 

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Devido ao crescimento do São João no Centro da cidade, as emissoras de rádio decidiram criar um concurso na década de 70 para escolher a rua que ficava mais bonita e com a melhor decoração junina. Por 11 anos a 3 de maio foi vencedora. Depois, a Fundação de Cultura e Turismo do município procurou as irmãs Lira para que a rua não participasse mais da competição. "Pensavam que a gente não iria caprichar porque não estávamos competindo, mas aí foi que fizemos bonito", ressalta Marinete.

A aposentada se sente orguhosa por saber que colaborou com a construção do São João de Caruaru - que, para ela, é "o melhor do mundo porque atrai muitos visitantes, tem muita divulgação e as melhores atrações". "Eu continuo gostando de São João e vou para a festa sempre que posso. Quando não, fico vendo pela televisão e torcendo para que seja linda, como sempre", diz Marinete.
Importância histórica
De acordo com o historiador Walmiré Dimeron, Agripino Pereira e as irmãs Lira foram os personagens responsáveis por consolidar Caruaru como a "Capital do Forró". "Eles tornaram comunitária uma festa que antes era familiar. A participação das pessoas ocorria de forma espontânea porque eles gostavam de fazer aquilo", enfatiza.

Ao G1, Walmiré conta que no início do festejo as mulheres eram responsáveis pelas comidas e bebidas, os homens montavam as palhoças e os jovens e crianças decoravam o local. "Estas atitudes despertaram o sentido de fraternidade, coletividade e união nas pessoas", destaca.
Rua 3 de maio, em Caruaru (Foto: Marinete Lira/Arquivo Pessoal/Joalline Nascimento/G1)
Rua 3 de maio na década de 70 (esq.) e em 2016 (dir.) (Foto: Marinete Lira/Arquivo Pessoal/Joalline Nascimento/G1)
tópicos:
Caruaru, Vitória de Santo Antão