quinta-feira, 12 de maio de 2016

Movimento Pró-Criança ainda busca superar perdas após incêndio Verba doada pelo governo em 2014 só foi disponibilizada em maio de 2016. Força de vontade move professores e alunos para manter as atividades.

Movimento Pró-Criança ainda busca superar perdas após incêndio
Verba doada pelo governo em 2014 só foi disponibilizada em maio de 2016. Força de vontade move professores e alunos para manter as atividades.


A espera acabou. Depois de mais de um ano aguardando a verba do governo destinada à reconstrução do prédio do Movimento Pró-Criança no bairro dos Coelhos, no Centro do Recife, a instituição finalmente recebeu a primeira parcela do total de R$ 1 milhão destinado a reparar os danos causados pelo incêndio de agosto de 2014. Apesar do longo período entre o incêndio e a doação, prometida em dezembro do mesmo ano, a força de vontade de alunos e professores para superar a perda de materiais e manter a qualidade das atividades mostra que o acidente só aumentou a vontade de fazer mais e melhor.

Nesta quinta (12), ocorrerá a primeira reunião para avaliar o cronograma de ações a serem feitas com a primeira parcela da verba. A retirada dos entulhos carbonizados, adiada desde o período do acidente, é o primeiro passo. O pouco auxílio financeiro que restou possibilitava manter o funcionamento das atividades em salas cedidas por outras ONGs, mas ainda não era suficiente para reformar os espaços destruídos pelas chamas.

De acordo com a Secretaria Estadual de Educação, à frente das negociações para a entrega da verba, uma série de trâmites burocráticos precisou ser cumprida até a liberação do dinheiro. O levantamento de documentações para formalizar o convênio foi demorado, mas a pasta assegurou a necessidade da criação de um plano de trabalho para listar os destinos do auxílio financeiro.  Enquanto isso, o auxílio vindo de outras fontes praticamente cessou.
Após um ano e nove meses do incêndio, entulhos ainda permanecem intactos no prédio do MPC, no bairro dos Coelhos (Foto: Aldo Carneiro/Pernambuco Press)
Após um ano e nove meses do incêndio, entulhos ainda permanecem intactos no prédio do MPC, no bairro dos Coelhos (Foto: Aldo Carneiro/Pernambuco Press)
“Recebíamos doações de pessoas física e jurídica, mas com o anúncio do governo, houve uma diminuição dessa ajuda. Temos dificuldade para manter as atividades funcionando, mas fazemos bazares e principalmente contamos com as doações feitas por meio das contas de água e de luz”, explica Júlia Zidanes, gestora da unidade dos Coelhos.
A nossa ideia aqui é resgatar esses meninos do contexto difícil das comunidades em que eles vivem para mostrar uma nova realidade a eles"
Júlia Zidanes, gestora da unidade Coelhos do MPC
Por meio dos Projetos Clarear e Regar, cerca de 245 mil contribuintes doam mensalmente a quantia de R$ 1,50 para o MPC e outros três projetos sociais. A quantia arrecadada é destinada à manutenção do coral, do judô e das aulas de artes para os jovens dos seis aos 14 anos, além do pagamento de funcionários e de outras despesas como água e luz. “As 540 crianças que participam das atividades têm, cada uma, um custo mensal de R$ 164. Por isso, nos viramos como dá”, conta a gestora.

Mesmo com os poucos recursos, professores e alunos se empenham para manter as atividades com o mesmo gás de antes. “Perdemos muitos materiais de qualidade para o fogo. Agora, temos que nos virar com pouco, mas essa é uma forma de incentivar a partilha entre os alunos”, revela a professora Patrícia Santos, há mais de dez anos à frente das aulas de artes do local.

Para a professora, o esforço para dividir o material é recompensado com o envolvimento de jovens como Adriano Pires, 16, e Rhayssa Quirino, 14. Aluna do MPC desde os 9 anos, ela frequenta as aulas, às terças e quintas, com mais dois irmãos e se sente realizada durante as atividades. “Gosto muito das oficinas porque são uma forma de me ocupar e de me divertir”, conta a menina. Aluno há apenas um ano, Adriano já pensa em ampliar o vínculo com o MPC. “Quero trabalhar aqui futuramente”, almeja.

Além do envolvimento de alunos vindos de comunidades recifenses como Coelhos e Coque, na área central, Patrícia Santos também se sente recompensada com a participação de intercambistas, vindos de países como Alemanha e Polônia através de parceria com a Aiesec Recife. “Uma coisa é ensinar sobre culturas usando exemplos de livros, mas outra coisa completamente diferente é ter uma pessoa de outro país para falar sobre as suas vivências. Os meninos adoram”, conta a professora.
Tim Junkermann, 21, e Klaudia Slosavryk, 24, são intercambistas e participam das atividades no local  (Foto: Aldo Carneiro/Pernambuco Press)
Tim Junkermann, 21, e Klaudia Slosavryk, 24, são intercambistas e participam das atividades no local
(Foto: Aldo Carneiro/Pernambuco Press)
Para quem vem de outro país, a troca de experiências é igualmente prazerosa. Há menos de um mês no recife, o estudante alemão de Negócios e Engenharia Tim Junkermann, 21, já ouviu histórias sobre o incêndio e chegou a ver o estado das salas, mas percebe que os integrantes do MPC não desanimaram com as perdas. “O trabalho realizado aqui é muito bom. Meu curso não tem a ver com arte, mas estou me envolvendo bastante com as atividades que eles fazem”, conta o estudante.

Apesar de ter apenas um dia como integrante das atividades, a estudante polonesa Klaudia Slosavryk, 24, diz que as atividades feitas no Movimento superaram as suas expectativas. “A oportunidade de passar esse tempo com as crianças é incrível. Aprendo um pouco sobre a cultura deles e eles aprendem um pouco da minha apesar dos poucos recursos”, elogia a jovem.
Para o professor Marcílio Félix (em pé à esquerda), judocas se sentiram estimulados a defender a camisa do MPC após incêndio (Foto: Aldo Carneiro/Pernambuco Press)
Para o professor Marcílio Félix (em pé à esquerda),
judocas se sentiram estimulados a defender a
camisa do MPC após incêndio
(Foto: Aldo Carneiro/Pernambuco Press)
No judô, o professor Marcílio Félix acredita que o período depois do incêndio trouxe resultados melhores para os atletas. “Os meninos vestiram a camisa do Movimento, porque viram que existia a necessidade de correr atrás do prejuízo”, conta. O problema, agora, é administrar os custos dos judocas que se classificam para competições estaduais e nacionais. “É sempre uma vitória quando um deles se classifica, mas é complicado para administrar os custos com viagens, hospedagem e taxas de competição”, explica.

A gestora Júlia Zidanes reconhece os problemas, mas acredita que eles são mínimos diante do objetivo do Movimento. “A nossa ideia aqui é resgatar esses meninos do contexto difícil das comunidades em que eles vivem para mostrar uma nova realidade a eles”, ressalta.